Declaração do comissário-geral sobre a abertura do ano letivo em Gaza

16 de setembro de 2014
UNRWA

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Graças à coordenação ativa junto ao Ministério da Educação, após 50 dias do terrível conflito, as escolas em Gaza estão novamente abrindo as portas aos alunos nesta segunda-feira (15), para o inicio do ano letivo.

Ao começar esse ano letivo, vamos primeiro nos juntar em memória das 500 crianças mortas durante o conflito – uma média de dez por dia. Vamos lembrar e honrar as 3 mil crianças feridas, das quais a ONU estima que 1.000 terão algum tipo de deficiência física para o resto de suas vidas. O trauma sofrido na infância é inimaginável. Como já disse antes, por trás de cada número e estatística terrível, estão vidas reais e destinos deteriorados pela guerra.

Esta dor não pode ser esquecida nem ignorada. Mas hoje estamos aqui para proporcionar uma sensação de esperança e a promessa de liberdade e dignidade. Como adultos, professores, pais, funcionários da UNRWA ou outros, temos o dever especial de ajudar as crianças de Gaza a voltarem para as salas de aula para que mais uma vez elas possam se engajar no processo de aprendizagem e desenvolvam habilidades para futuras oportunidades.

Devemos isso a todas as crianças em Gaza. Para que elas voltem às escolas com o objetivo de estudar árabe, geografia, matemática e assim por diante. Apesar de todas as dificuldades dos últimos meses, é hora de passar confiança para os jovens. Chegou a hora de deixar as crianças se expressarem, para que possam enfrentar e superar os traumas do conflito; situações que nenhuma criança deveria viver. Não podemos deixar nenhuma criança sozinha neste momento. Todos nós devemos nos mobilizar para garantir que elas sejam apoiadas, ouvidas e incentivadas.

Enquanto as crianças são o centro do retorno às escolas, de certa forma, os próprios edifícios escolares também o são. Mais de 81 escolas da UNRWA foram danificadas durante o conflito e mais de 90 serviram como abrigos para cerca de 290 mil pessoas deslocadas. Estes números são cinco vezes maiores do que os durante o conflito de 2008/9. Além disso, em sete ocasiões as escolas da UNRWA foram atingidas por bombas ou projeteis do conflito. Exigimos investigações. O fato das escolas estarem reabrindo hoje, não significa que os bombardeios as nossas escolas serão esquecidos. Eu me comprometo a manter esses incidentes no topo da agenda para que haja prestações de contas.

O retorno às aulas para as crianças e professores de Gaza este ano não pode ser feito normalmente. As crianças foram severamente afetadas por suas experiências e por isso devem ser apoiadas nessa transição. A UNRWA empregou centenas de conselheiros psicossociais que já estão trabalhando contra o relógio para lidar com os pais, com as crianças e com as famílias como um todo. O povo de Gaza está emergindo de um conflito que deixou um saldo trágico: tanto físico como psicológico. Nossa dedicada equipe preparou mais de uma centena de escolas para o início do ano letivo. Algumas delas ainda estão abrigando milhares de pessoas deslocadas.

Aprendendo com experiências em outros ambientes de conflito, nosso departamento de educação tomou algumas medidas especiais para esta fase delicada. Nove em cada dez escolas funcionarão em jornada dupla.

Serão realizadas três fases: uma semana de trabalho psicossocial. Várias semanas de atividades de aprendizagem e, em seguida, um período de transição para uma retomada do currículo normal. As crianças em Gaza vão competir com as da Cisjordânia em concursos públicos, de modo que nenhum momento pode ser perdido neste já atrasado ano letivo.

Agradeço às equipes da UNRWA, em particular, às secretarias de educação em Gaza e Amã por terem trabalhado duro possibilitando que cerca de 241 mil crianças voltem às aulas, logo após o fim do conflito. Agradeço também aos operários, professores, conselheiros e trabalhadores, por sua dedicação. Os funcionários da UNRWA são pais e sofreram muita pressão nas últimas semanas com a perda de 11 colegas, vários professores e diretores.

Temos com objetivo trazer de volta a imagem das escolas como lugar de aprendizado e esperança, onde as habilidades de quase 241 mil crianças em Gaza possam ser estimuladas e desenvolvidas. Tem sido e será um processo difícil, mas o nosso compromisso é inabalável.

Presto homenagem aos pais e aqui falo como um pai também. O maior desafio para qualquer pai é ter visto o sofrimento de seu filho e estar impotente. Hoje gostaria de expressar a minha maior admiração e respeito a todos os pais de Gaza. Este é um momento em que você pode fazer uma enorme diferença para os seus filhos, incentivando-os a voltar para a escola e estudar. A UNRWA e o nosso corpo docente estão com você. Estamos com você e sua família para ajudar nesta difícil e longa jornada.

Finalmente, gostaria de agradecer aos nossos parceiros como o UNICEF, UNESCO e NRC pela excelente coordenação que nos permitiu estar prontos para abrir as escolas em Gaza.

Vou compartilhar duas observações finais. A educação é fundamental para o desenvolvimento de nossa personalidade, na capacidade de pensar de forma independente e crítica e na aquisição de competências importantes para nossas vidas. Isso é algo que os palestinos há muito compreenderam e investem.

Também é um elemento crucial no processo de moldar identidades, tanto individuais como coletivas. Ajuda a formar uma consciência e sentimento de pertencimento. Todas as crianças que voltam às escolas devem se sentir orgulhosos de serem palestinos.

A educação é também em muitos países do mundo, uma ferramenta fundamental para superar o isolamento, exclusão e humilhação. As crianças das escolas de Gaza não só devem ter a oportunidade de voltar à escola, mas no dia em que se formarem, eles devem gozar das mesmas liberdades e oportunidades de emprego. Para isso é necessário resolver as causas subjacentes da ocupação e do bloqueio. Repito meu apelo para que o futuro das crianças de Gaza possam ser de promessas, de respeito de direitos e da dignidade.

Obrigado.