Não há uma única criança que não tenha sido afetada pelo recente conflito em Gaza, diz especialista da ONU

30 de setembro de 2014
Crianças palestinas choram no funeral de seus entes queridos em Rafah, sul da Faixa de Gaza (15 de julho de 2014). Foto: UNICEF/El Baba

Crianças palestinas choram no funeral de seus entes queridos em Rafah, sul da Faixa de Gaza (15 de julho de 2014). Foto: UNICEF/El Baba

Não há uma única criança que não tenha sido afetada pelo recente conflito em Gaza. Elas sofrem de incontinência urinária, dificuldades para dormir, pesadelos, perda de apetite e exibem um comportamento mais agressivo na escola. Esses dados alarmantes foram revelados nesta segunda-feira (29) pelo especialista independente da ONU em diretos humanos, Makarim Wibisono, como conclusão de sua primeira missão à região.

O relator especial sobre a situação dos direitos humanos nos territórios palestinos enfatizou o terrível custo pago pelos civis palestinos, especialmente as crianças em Gaza, como resultado da operação militar de Israel que durou 50 dias entre 7 julho a 26 de agosto.

De acordo com o comunicado de imprensa sobre suas descobertas, a mais recente onda de violência causada pelo recente conflito deixou 1.479 civis mortos, incluindo 506 crianças. Um total de 11.231 civis palestinos, incluindo 3.436 crianças, foram feridas. Muitas terão que lidar com essas deficiências ao longo da vida; outras milhares de crianças vivem com o trauma de ter presenciado os assassinatos de membros da família, amigos e vizinhos diante dos seus próprios olhos. Para o relator, estes dados “levantam sérias questões sobre possíveis violações do direito humanitário internacional e dos direitos humanos”.

“A alegação de Israel de autodefesa contra uma população que vive sob bloqueio considerado ilegal perante a lei internacional é insustentável”, disse ele. “Em uma população onde mais da metade dos 1,8 milhão são menores de 18 anos, esta foi realmente uma tragédia, que será vivida por muitas gerações.”

Durante sua visita à região, Wibisono reuniu-se com autoridades palestinas, representantes da sociedade civil, defensores dos direitos humanos, entre outros, em Amã, Cairo, e em Gaza. As conversas foram realizadas por vídeo e teleconferência, dado que Israel não concedeu acesso ao território palestino ocupado.

Sete mil artefatos explosivos não detonados

Cerca de 7 mil artefatos explosivos não detonados, o chamados resíduos explosivos de guerra (REG), ainda estão espalhados em toda a Faixa de Gaza e continuam representando uma séria ameaça para os moradores de Gaza, incluindo crianças.

Nos 50 dias de bombardeios implacáveis, 228 escolas em Gaza foram danificadas, incluindo 26 que ficaram totalmente destruídas. Atualmente as escolas da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA), que abriram as portas para o começo do ano letivo, estão operando em turnos dobrados para atender o maior número de jovens.

Estima-se que 60 mil civis ainda permaneçam em 19 abrigos na Faixa de Gaza. Enquanto isso, os profissionais de saúde também relataram escassez crítica de medicamentos e equipamentos. Muitos médicos expressaram frustração com a falta de energia elétrica.

O relator especial também levantou sérias preocupações sobre a deterioração da situação dos direitos humanos na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, em relação ao uso excessivo de violência por parte das forças de segurança de Israel no contexto de manifestações e confrontos nos últimos meses.

Os peritos independentes, ou relatores especiais, são nomeados pelo Conselho de Direitos Humanos da ONU com sede em Genebra para examinar e informar sobre a situação do país ou um tema específico de direitos humanos. As posições são honorárias e os especialistas não são funcionários da ONU, nem são pagos pelo seu trabalho.

Wibisono apresentará suas observações e recomendações para a vigésima oitava sessão do Conselho, em março de 2015.