UNRWA faz apelo por apoio financeiro em Gaza

11 de setembro de 2014

 

UNRWA

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Durante sete longas semanas – de 7 julho a 26 agosto – a população de Gaza foi exposta a um conflito brutal e generalizado. Milhares de civis foram mortos e feridos. Cerca de meio milhão de pessoas foram deslocadas. O nível de destruição física de casas e da infraestrutura vai além de qualquer fato já visto nos últimos anos.

Agora que as armas se silenciaram, o povo de Gaza começa a emergir do violento choque causado pelas duras experiências vividas durante esta guerra. É um choque causado pela morte e devastação ao seu redor e um profundo sentimento – expresso tantas vezes durante o desenrolar do conflito – de que o mundo os tinha abandonado e falhado em protegê-los.

O trágico conflito em Gaza, também foi um desafio humano e uma pressão gigantesca para a UNRWA. Cerca de 70% dos habitantes de Gaza são refugiados da Palestina e, como muitos habitantes de Gaza dizem, a UNRWA é de várias maneiras a espinha dorsal da Faixa de Gaza, por ser responsável pela prestação dos serviços de saúde, educação e emergência. Cerca de 12,5 mil funcionários da UNRWA são de Gaza. Eles sofreram, assim como outros habitantes. Eu visitei Gaza três vezes durante o conflito e conheci a maioria dos familiares dos 12 funcionários que foram mortos.

A nossa maior preocupação durante o conflito foi a de fornecer, de alguma forma, um refúgio seguro para as milhares de pessoas que fugiram de suas casas. Quero aqui prestar a devida homenagem às realizações dos meus colegas a este respeito, que ajudaram ao mesmo tempo quase 300 mil deslocados em 90 de nossas instalações no meio da zona de guerra. No entanto, em sete ocasiões distintas, as escolas da UNRWA usadas como abrigos foram atingidas por bombardeios e explosões, deixando dezenas de mortos, incluindo crianças que dormiam ao lado de seus pais no chão de nossas salas de aula. Manifestamos nossa revolta com o que é uma afronta a todos nós, uma fonte de vergonha universal. Nada justifica ou pode justificar os bombardeios israelenses às instalações da ONU, cujas localizações tinham sido informadas em várias ocasiões para garantir que fossem preservadas.

Exigimos a responsabilização e hoje reitero o pedido de investigação sobre esses incidentes gravíssimos. Estes episódios não devem ser esquecidos, uma vez que a atenção se concentra em outras questões agora que a luta foi interrompida.

Mas há assuntos mais prioritários. Em primeiro lugar está a necessidade de fornecer comida e abrigo aos mais vulneráveis entre os sobreviventes. Cerca de 30 escolas da UNRWA ainda estão sendo usadas como alojamento temporário para mais de 55 mil pessoas deslocadas que não têm casas para voltar.

O conflito desta vez foi cinco vezes pior do que o já terrível de 2009, em termos do número de deslocados e casas danificadas. A UNRWA está na vanguarda dos esforços para reabilitar a Faixa Gaza. Além de abrigar por tempo indeterminado os desalojados, estaremos reparando milhares de casas e dezenas de nossas próprias escolas e outras instalações. Vamos dar apoio financeiro para milhares de famílias para ajudá-los a retomar suas vidas. Também vamos fornecer ajuda psicológica para os indivíduos traumatizados, incluindo muitas crianças. Vamos trabalhar na recuperação de algumas infraestruturas como as do sistema de água. A realização desses projetos será feita com parceria direta da população, o que vai proporcionar diversas oportunidades de emprego.

Para a realização dos projetos, precisamos de duas coisas. Primeiro ser capazes de trazer materiais de construção essenciais para dentro de Gaza. Se voltarmos à situação anterior do conflito, quando Israel estava bloqueando a maioria das construções, não poderemos alcançar muito. Por isso, é inconcebível que o atual cessar-fogo – tão importante e vital – não seja o único resultado após o intenso conflito e que a situação remanesça igual àquelas preexistentes sob o bloqueio, que deixam Gaza em situação insustentável e inabitável. O bloqueio é ilegal sob a lei internacional e deve ser interrompido, assim como os ataques de foguetes contra Israel devem acabar.

A segunda coisa que precisamos é de fundos. A UNRWA está trabalhando com outras partes envolvidas – Agências da ONU, o governo de união – na elaboração de um plano de longo prazo para a recuperação e reconstrução de Gaza. Não é preciso dizer que grande parte dessa responsabilidade cairá sobre a comunidade internacional, em particular os países árabes. Pois, sem um forte apoio financeiro, não só o sofrimento de milhares de pessoas vão continuar, mas será impossível restaurar qualquer resquício de vida econômica, segurança humana e estabilidade para população de Gaza.

Deixe-me ser ainda mais claro. Há uma necessidade latente de apoio financeiro neste momento.  Uma reconstrução a longo prazo deve ser abordada, mas vai depender do resultado das negociações sobre o acesso de materiais de construção. Minha principal mensagem para vocês hoje é: não esperem semanas para fornecer apoio. A UNRWA precisa de 47 milhões de dólares nas próximas quatro semanas para ajudar a tornar as condições de vida em Gaza toleráveis. Com esses recursos, podemos facilitar reparos menores, como novas portas e janelas para centenas de casas antes do inverno. Podemos fornecer ajuda financeira para milhares de desabrigados, a fim de que aluguem quartos temporários e itens essenciais para retomarem suas vidas.

Comissário-geral, quando você e eu discutimos minha participação no início deste ano, prevíamos que eu estaria falando sobre o papel da UNRWA e suas necessidades não só em Gaza, mas em cada um dos seus cinco campos:

Na Cisjordânia, incluindo Jerusalém Oriental, onde nos esforçamos para proteger contra o impacto nos meios de subsistência causados pela barreira na Cisjordânia e outras restrições de movimento, expansão dos assentamentos, deslocamento forçado, demolições de casas e outras manifestações da ocupação.

No Líbano, onde muitos refugiados continuam vivendo em campos de refugiados precários superlotados, a ​UNRWA está reconstruindo um campo inteiro para acomodar 22 mil pessoas em Nahr El Bared. Essa obra vai contribuir para a estabilidade no norte do Líbano, desde que tenhamos os recursos para concluí-la.

Na Síria, onde o conflito obrigou mais da metade dos 540 mil palestinos no país a abandonarem suas casas, e onde também abrigamos cerca de 8 mil pessoas todos os dias em nossas escolas em Damasco, muitos deles de Yarmouk.

Na Jordânia, um oásis de relativa calmaria, mas onde a UNRWA fornece educação para cerca de 116 mil crianças, incluindo muitas que fugiram da Síria.

A UNRWA só pode realizar estas tarefas se tiver os recursos necessários. Nós dependemos quase inteiramente de contribuições voluntárias. O comissário-geral da UNRWA copresidiu com Ban Ki-Moon, em Nova York, uma reunião que gerou a renovação do compromisso dos governos árabes, que ficaram responsáveis por fornecer 7,8% do orçamento da UNRWA. É preciso dizer que o desempenho de 4% ainda está muito aquém desse objetivo. Por isso fazemos um apelo aos membros por mais generosidade para permitir a continuidade do trabalho vital da UNRWA.

Estou ciente de que vários membros já fazem generosas doações para a moradia de refugiados, novas escolas e clínicas e de emergência. Somos muito gratos por isso. Mas os custos do programa da UNRWA – o dinheiro para manter nossas 710 escolas,138 centros de saúde e 40 centros de distribuição de alimentos em execução – excedem nossa capacidade de quitar os pagamentos, de modo que estamos diante de um déficit de 50 milhões de dólares este ano, mesmo após a imposição de severas medidas de austeridade. Não posso deixar de citar o estado precário das finanças da UNRWA.

Finalmente, quero voltar para Gaza. Em exatamente uma semana a partir dessa segunda-feira (08), as escolas vão reabrir, um feito notável, logo após o fim do conflito. Nosso objetivo é abrir 252 escolas em mais de 130 edifícios escolares, educando quase 250 mil crianças, muitas delas profundamente traumatizadas, mas que terão o prazer de reencontrar seus amigos depois da guerra. Eu gostaria de poder levá-los para que com os próprios olhos possam ver tantos os risos e as lágrimas. Tenho certeza que todos concordam que não há nada mais importante do que a educação da próxima geração em Gaza.

Como já afirmei várias vezes durante a guerra, os palestinos não são estatísticas. São homens, mulheres e crianças com esperanças e expectativas semelhantes as de pessoas no resto do mundo. Fundamentalmente, é hora de uma mudança de paradigma em Gaza e na Cisjordânia. É hora de abordar as causas subjacentes ao conflito e à ocupação. Dando liberdade para movimentação, para o comércio e trabalho. Enquanto isso, convoco a renovarem e fortalecerem seu apoio à UNRWA, para que possamos dar a essas crianças e suas famílias uma vida decente e uma base para um futuro digno.

Obrigado.