“A UNRWA nunca foi concebida para existir por tanto tempo”, afirma o secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.

8 de junho de 2015
Uma incursão militar israelense no acampamento de Jenin, na Cisjordânia, em abril de 2002 destruiu 150 edifícios e deixou cerca de 435 famílias desabrigadas. O projeto de reconstrução do local foi um dos maiores executados pela UNRWA até então. Foto. UNRWA/ Mia Grondahl
Uma incursão militar israelense no acampamento de Jenin, na Cisjordânia, em abril de 2002 destruiu 150 edifícios e deixou cerca de 435 famílias desabrigadas. O projeto de reconstrução do local foi um dos maiores executados pela UNRWA até então. Foto. UNRWA/ Mia Grondahl

Marcando 65 anos desde o início das atividades da  Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Médio (UNRWA), o secretário-geral, Ban Ki-moon, declarou nesta terça-feira (02) que a UNRWA  é mais que uma agência, é uma “salvação”, ao prestar homenagens aos seus funcionários, especialmente àqueles que perderam suas vidas tentando servir aos outros.

“Aniversários são geralmente um tempo para celebração”, disse Ban, “mas nós o fazemos com os corações pesados. Nós o fazemos sabendo que não deveríamos alcançar o 65º aniversário da UNRWA porque a UNRWA  nunca foi concebida para existir por tanto tempo”. “A agência existe por causa do fracasso político. Existe na ausência de uma solução justa e duradoura para a situação dos refugiados da Palestina”, acrescentou o chefe da ONU.

A Agência da ONU de Assistência aos Refugiados da Palestina fornece assistência e proteção para aproximadamente 5,2 milhões de refugiados palestinos registrados através de educação, cuidados de saúde, assistência e serviços sociais, melhoria dos campos e infraestrutura, microfinanças e assistência emergencial,  incluindo em tempos de conflito armado.

Estiveram presentes no evento “UNRWA@65: Sustaining Human Development and Protecting Rights of Palestine Refugees” (Sustentando o Desenvolvimento Humano e Protegendo os Direitos dos Refugiados da Palestina, em tradução livre) o presidente da Assembleia-Geral, Sam Kutesa, a representante especial do Presidente do Estado da Palestina, Hanan Ashrawi, e o Comissário-geral da UNRWA, Pierre Krähenbühl.

O Secretário-geral prestou homenagem aos 30 mil dedicados funcionários da UNRWA, a maioria deles refugiados da Palestina, e a todos os funcionários que foram mortos durante o último conflito em Gaza, em julho de 2014, que causou muitas mortes e devastou várias casas, escolas, hospitais e outras estruturas civis.

Ban clamou às partes envolvidas para que finalizem as providências para reconstruir as casas destruídas. “Nós sabemos aonde o fracasso de resolver esta e outras questões vai nos levar. Nós já vimos isto. Gaza é um barril de pólvora – e a crescente frustração e a raiva vão, com certeza, acender este pavio. É necessário agir agora”, afirmou.

Atualmente Gaza possui um dos maiores níveis de desemprego do mundo, com mais de 60% da população jovem desempregada. “As oportunidades para os refugiados da Palestina são imensuravelmente mais difíceis por conta do bloqueio, dos bombardeios, cercos, oclusões e toda a agitação”, disse Ban.

Cerca de 60 mil refugiados da Palestina que viviam na Síria fugiram para o Líbano e para a Jordânia, inflando as comunidades que os receberam. De Yarmouk, na Síria, e dos campos de refugiados da Jordânia à Cisjordânia, as vidas dos refugiados da Palestina são restringidas, com pobreza e privações presentes intensamente nos campos superlotados.

“O resultado está aprofundando a dor e vulnerabilidade dos refugiados da Palestina. Alguns estão recorrendo à medidas desesperadas, colocando suas vidas nas mãos de inescrupulosos traficantes de pessoas, em uma tentativa perigosa para chegar à Europa através do mar”, disse Ban Ki-moon.

“A UNRWA ainda é um fator estabilizador vital”, afirmou Ban, clamando aos líderes de Israel, da Palestina e de todas as partes com influência para “retomarem as negociações sem mais delongas, e pôr fim às ações unilaterais que desgastam a confiança”.

Na mesma linha, o presidente da Assembleia Geral, Kutesa, disse que poucos imaginavam que 65 anos depois, a UNRWA continuaria desempenhando um papel essencial na vida de milhões de refugiados da Palestina.

“O conflito em Gaza no ano passado teve impactos negativos sobre as 1,2 milhão de pessoas ajudadas pela UNRWA na região. Milhares morreram e muitos ficaram feridos, alguns com deficiência física e trauma emocional para sempre”, disse.

Além disso, a deterioração das condições humanitárias e socioeconômicas na região criaram grandes obstáculos para a agência prover os cuidados necessários, incluindo as reconstruções de emergência e os programas de desenvolvimento.

Por isso, é vital que o financiamento necessário seja fornecido o mais rápido possível, para que a reconstrução possa começar em Gaza. Neste contexto, ele pediu que todos os doadores procurem formas de apoiar ainda mais o trabalho vital da UNRWA em toda a região.

“Renovar o apoio do sistema das Nações Unidas, dos doadores e da comunidade internacional será fundamental para fortalecer ainda mais o trabalho da Agência”, enfatizou Kutesa.

Também presente no evento, o comissário-geral da UNRWA, Pierre Krähenbühl, disse que o marco de 65 anos da agência requer um momento de reflexão sobre o que significa ser um refugiado da Palestina nos dias de hoje.

“Ser um refugiado da Palestina em Gaza significa ser vítima de um bloqueio e desejar nada além da autossuficiência”, explicou,  comentando sobre a sua visita ao campo de Yarmouk, na Síria, onde testemunhou a miséria e a fome que os refugiados da Palestina enfrentam.

Refletir também significa rever algumas das ações marcantes que a UNRWA realizou nas últimas seis décadas e meia. Como por exemplo: durante o conflito em Gaza em 2014, abrigou 300 mil pessoas deslocadas em 90 escolas da agência, dando assistência médica a estas pessoas mesmo em meio as circunstâncias extremas da guerra.

“Durante o conflito atual na Síria, nós continuamos fornecendo a assistência essencial para as centenas de milhares de deslocados de Yarmouk, prestando primeiros socorros, cuidados de saúde e educação”, explicou Krähenbühl.

Com a ajuda de seus parceiros, a UNRWA também contribuiu para o desenvolvimento de capital humano no Oriente Médio. Atualmente, a agência gerencia 700 escolas, o equivalente ao atual sistema público de ensino de São Francisco. A UNRWA também possui 140 clínicas de saúde.

“Isto criou um capital humano que muitos países no mundo invejariam. Mas obter estas conquistas tem um preço alto”, disse, lamentando os funcionários da UNRWA que perderam suas vidas em 2014.

“Somos todos testemunhas do fracasso em achar uma solução justa para o sofrimento dos refugiados da Palestina, que se tornou um assunto de senso comum em um Oriente Médio cada vez mais insustentável”, acrescentou o comissário-geral da UNRWA.

“Não agir hoje, quando 65% dos refugiados da Palestina com menos de 25 anos estão educados, mas desempregados, vai levar muitos deles ao desespero, podendo escolher caminhos errados no Oriente Médio ou em outros lugares”, alertou.

“Nós podemos escolher fechar os nossos olhos para isto agora, mas nós devemos estar cientes de como estará o cenário quando resolvermos abri-los novamente”, disse Krähenbühl, enfatizando que a agência precisa do apoio dos atuais e de novos parceiros, e que financiar o trabalho da UNRWA deve ser visto como um investimento.

“Mas a ajuda humanitária não substitui a dignidade humana e os direitos humanos. Os palestinos merecem uma solução justa e definitiva”, concluiu.