Uma década falando sobre as necessidades humanitárias do povo palestino

7 de agosto de 2015
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Chris Gunness sendo entrevistado na Cisjordânia sobre a comunidade beduína sendo deslocada. Foto: UNRWA

Chris Gunness desempenha a função de porta-voz e diretor de Comunicação Estratégica da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) por quase uma década. Ele é incansável na defesa dos 5 milhões de refugiados da Palestina no Oriente Médio que são de responsabilidade da UNRWA. Voz corriqueira na cobertura da mídia sobre o conflito palestino, Gunness já foi insultado e reverenciado por seu compromisso persistente de aliviar o sofrimento dessa população.

Sediado em Jerusalém, mas cobrindo operações da UNRWA em toda região, ele viveu e trabalhou em cinco guerras – três em Gaza, uma no Líbano e outra na Síria – além de muitos outros momentos de extrema tensão e violência com a comunidade internacional trabalhando para trazer a paz ao Oriente Médio.

Gunness chegou às Nações Unidas através do seu emprego anterior como jornalista da BBC, onde trabalhou por 25 anos. Como correspondente da BBC na sede da ONU conheceu melhor o trabalho do Sistema ONU durante uma temporada que passou com a Força de Proteção da ONU na região dos Bálcãs. Posteriormente, conseguiu um emprego no Escritório do Coordenador Especial das Nações Unidas para o Processo de Paz no Oriente Médio (UNSCO) em Jerusalém e logo após assumiu o cargo da UNRWA que ocupa até hoje.

Com o conflito sírio em seu quinto ano, Gunness nunca desperdiça uma oportunidade para lembrar ao mundo as manchetes que surgem na mídia e logo desaparecem. Os palestinos sitiados em Yarmouk, um subúrbio de Damasco, tomaram as telas de TV em todo o mundo, quando a ajuda finalmente pode chegar a eles – e agora uma impressionante, porém, icônica imagem que a UNRWA circulou, mostra como os civis são os peões no jogo de xadrez da política.

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Uma multidão espera para receber ajuda no campo de refugiados palestinos de Yarmouk na capital da Síria em 2014: Foto: UNRWA

Ano passado, no entanto, ele deixou de fornecer informação para a mídia para tornar-se, ele mesmo, uma notícia. Um vídeo que mostrava ele emocionado durante uma entrevista na TV transmitida na última guerra de Gaza se tornou viral.

O Centro de Notícias da ONU falou com Gunness sobre os desafios que a UNRWA enfrenta em 2015, suas experiências na linha de frente de uma das questões mais controversas do mundo em relações internacionais e sobre o famoso vídeo.

Centro de Notícias da ONU: Você tem estado a frente da comunicação da UNRWA por quase uma década. Quais eram suas expectativas quando você se juntou à agência?

Chris Gunness: Eu sabia que era provavelmente a mais difícil tarefa para um porta-voz das Nações Unidas no planeta – mas eu não sabia exatamente o quão difícil ia ser, porque meu trabalho é realmente um para-raios para muita raiva. Uma raiva totalmente compreensível que muitos sentem em relação à ONU em geral – e não apenas em relação à UNRWA – tanto do lado israelense como do palestino.

Do lado israelense, há um sentimento de que só trabalhamos com os palestinos, que fazemos tudo em defesa deles; mas esse é o mandato que a Assembleia Geral nos designou e é isso que fazemos da melhor forma possível. Do lado palestino, há muita raiva com o que somos – e novamente, eu sou um para-raios disso – porque foi lhes negada uma solução justa e durável. Eles tiveram seus direitos políticos negados e enormes injustiças são perpetradas contra os palestinos, e a ONU, francamente, foi incapaz de fazer muita coisa sobre isso.

Olhe para a Síria ou para o conflito no verão passado em Gaza: negação maciça dos direitos humanos e da dignidade. A UNRWA está na linha de frente de tudo, literalmente, e nós somos a coisa mais próxima que os palestinos e israelenses têm que represente a comunidade internacional e eu sou talvez o rosto mais público sobre isso, então eu sou o único que é, como eu digo, um para-raios.

Centro de Notícias da ONU: Como você trata esses “raios”?

Chris Gunness: Temos um grande comissário-geral, um homem que é íntegro e acredita na incidência pública feita da maneira correta. Fazemos isso de um modo que contenha tanta controvérsia quanto pudermos, baseada no direito internacional, em nosso mandato e em princípios humanitários. A questão sobre a controvérsia é que muitas vezes você não acaba não conversando sobre o que você quer. Então você começa a falar sobre os abusos de direitos, sobre proteção, e então, de repente, você entra em um debate sobre se você é orientalista ou antissemita.

Tentamos limitar o quanto for possível todo o barulho em torno da questão ao sermos realmente perspicazes e criteriosos na forma como abordamos mensagens públicas, então todos nós fazemos o que podemos para conter e limitar as consequências políticas do que dizemos.

Mas o fato é que trabalhamos, eu trabalho, em uma atmosfera política altamente combustível. As explosões surgem a qualquer momento – literal e metaforicamente – e por isso temos de olhar pra frente, temos que prever e temos que tomar o maior número de medidas cautelares que pudermos.

Centro de Notícias da ONU: Como você lida com essa pressão?

Chris Gunness: Estaria mentindo se eu tentasse fingir que não houve estresse e que não houve consequência, porque para mim é uma experiência muito humana. Acho que ser um porta-voz da ONU significa sentir consigo a humanidade – isso não significa que você mesmo se torna a notícia-  acho que é sobre ser o que a ONU representa, incorporando seus valores de compaixão, de humanidade, de dignidade e ao mesmo tempo tentando ser eloquente e expressivo.

E acho que apenas ser um de porta-voz tenso das Nações Unidas em um terno Armani realmente coloca uma distância entre a ONU e o mundo que estamos servindo. Então não uso ternos muitas vezes, eu uso gravata com muita frequência. Mas sou limitado por todas as regras internas de pessoal, estou cercado pela política do conflito, sou limitado pelas políticas do Conselho de Segurança e todas aquelas outras dinâmicas.

Chris Gunness, porta-voz da UNRWA há quase uma década. Foto: UNRWA

Chris Gunness, porta-voz da UNRWA há quase uma década. Foto: UNRWA

Mas, dentro disso, acho que é importante encontrar o máximo de espaço para ser humano, porque isso é o que o mundo tem de reconhecer, acho que, no âmbito da ONU – é essencial uma instituição humanizada e esse é nosso trabalho, acredito, projetar, viver e ser isso. Isso é importante.

Centro de Notícias da ONU: Quais são os maiores desafios para a UNRWA este ano?

Chris Gunness: Lidar com o déficit de 101 milhões de dólares da UNRWA é de longe o maior desafio de todos. Se nós não recebermos todo esse dinheiro logo, enfrentaremos uma decisão difícil, que pode envolver não abrir nossas escolas no início do próximo ano letivo. Seria um golpe devastador para uma agência cujo programa maior é a educação. E ter 500 mil crianças, que deveriam estar aprendendo nas ruas em um momento de crescente extremismo no Oriente Médio é uma perspectiva alarmante. O ano de 2015 também vai ser muito interessante no âmbito do conflito Israel-Palestina, porque acho que, após o acordo de Oslo, o que temos visto é a lenta erosão do processo de paz que torna o trabalho humanitário que fazemos mais importante.

A falta de uma solução justa e durável e a falta de qualquer senso real de justiça para os refugiados da Palestina farão com que o trabalho da UNRWA em defesa dos direitos dos refugiados da Palestina e em prol do seu desenvolvimento humano sejam ainda mais importantes. Com isso é provável que venham ataques políticos e retóricos sobre a UNRWA, baseados na ideia absurda de que perpetuamos o conflito no Oriente Médio – o que, claro, não fazemos. A razão da existência da UNRWA, como já disse muitas vezes é o fracasso político. Nós temos o mandato de fazer o nosso trabalho humanitário até que haja uma solução justa e duradoura para os refugiados. Enquanto o mundo não consegue encontrar essa solução, vamos continuar existindo. Para ser claro, a UNRWA não quer nada mais do que encerrar seu trabalho, mas isso só acontecerá quando as partes envolvidas no conflito resolverem a questão dos refugiados, com base no direito internacional e as resoluções da ONU.

Centro de Notícias da ONU: Como a crise na Síria afetou a capacidade da UNRWA em fazer o seu trabalho?

Chris Gunness: A crise na Síria foi muito inesperada e os quatro anos nos absorveram completamente. Continuo dizendo às pessoas que o quê a UNWRA deveria estar fazendo era incentivar o desenvolvimento humano, a gestão das escolas e clínicas de saúde. Mas, cada vez que tentamos realizar isso, uma crise acontece. O conflito em Gaza acontece de novo, ou a guerra na Síria explode e a UNRWA é forçada a trabalhar em modo emergencial, o que ela faz muito bem, por sinal.

A crise na Síria foi outro exemplo de onde a falta de uma solução durável e o fracasso da política tem dado à UNRWA uma enorme carga de trabalho, e é por isso que estamos fazendo todo o trabalho de emergência no país. Estamos muito mal financiados e, portanto, os refugiados não estão recebendo a ajuda que precisam. Por exemplo, ano passado, distribuímos menos de 60 centavos de dólar por refugiado por dia na Síria – isso não é suficiente. Muitas de nossas instalações foram destruídas e danificadas e não existe acesso a elas.

Centro de Notícias da ONU: Você pode nos contar, a partir do que você já viu, sobre a consequência da violência para as vítimas?

Chris Gunness: Eu trabalhei para a UNWRA durante três guerras em Gaza, a guerra no Líbano e a guerra na Síria – que são cinco conflitos extremamente perturbadores. É claro, o desgaste físico é enorme. Na minha primeira vez em Gaza, após a última guerra, parecia que um terremoto, como o do Nepal, tinha atingido a região, exceto que este foi provocado pelo homem, não foi natural. Estive em Gaza quando houve explosões, quando aviões sobrevoavam baixo e é realmente aterrorizante e terrível, especialmente se você é um bebê ou uma criança. Já estive em Gaza quando houve picos de violência.

Famílias palestinas encontram abrigo nas instalações de uma escola da UNRWA durante o conflito em 2014 em Gaza. Foto: UNRWA/Shareef Sarhan

Famílias palestinas encontram abrigo nas instalações de uma escola da UNRWA durante o conflito em 2014 em Gaza. Foto: UNRWA/Shareef Sarhan

Mas, em geral, acho que estar em uma zona de conflito significa que sempre existe a possibilidade de violência. No contexto palestino, há sempre um conflito de baixa intensidade. No Líbano, você pode estar dirigindo pelas ruas e, de repente, haverá um tanque estacionado no meio de uma rotatória, ou você pode estar na Cisjordânia e, de repente, há uma investida com gás lacrimogêneo, mas acho que isto faz parte do trabalho. Acredito que você tem que estar acostumado ao imprevisível e tem que ser capaz de responder a isso, de uma forma racional e humana.

Centro de Notícias da ONU: Seu trabalho tira você da relativa segurança de Jerusalém para as dificuldades e o sofrimento em lugares como Gaza – como você ajusta essas diferenças em tais locais?

Chris Gunness: Tenho que dizer que essa justaposição a qual você se refere sobre mim é um lembrete constante do que os palestinos não têm, e, ao invés de me acostumar com a violência e a injustiça, isso realmente aguça a experiência e aumenta a necessidade de compaixão e humanização da história.

Quando eu vou para Gaza e vejo o impacto humano do conflito, isso me deixa mais determinado a contar a sua história e amplificar as vozes, para lembrar ao mundo que existe essa enorme injustiça, que não pode haver paz no Oriente Médio a menos que cinco milhões de refugiados sejam retirados desse estado de desapropriação e injustiça.

Centro de Notícias da ONU: No ano passado você se tornou notícia por razões diferentes das habituais – como é que isso aconteceu?

Chris Gunness: O dia em que explodi em lágrimas na televisão começou muito cedo, quando uma escola da UNRWA em Gaza foi atingida e pessoas foram mortas enquanto dormiam no chão de uma sala de aula da ONU, e fomos todos chamados para o escritório, foi um dia muito angustiante. Fui entrevistado pela Al Jazeera em árabe, depois na Al Jazeera em inglês, onde sempre apareço. O canal mostrou imagens terríveis daquele dia ao vivo, com um monitor logo abaixo da câmera, então eu vi todas as imagens e comecei a pensar: “Não posso passar por isso – vi muito sofrimento”. Tinha apenas que conseguir administrar a entrevista e dizer adeus no final, mas comecei a perder o controle das minhas emoções e, como foi ao vivo, não podia simplesmente finalizar minha participação. Então quando a entrevista acabou comecei a chorar. E chorei muito. Geralmente teria feito a entrevista, abaixado o microfone e chorado baixinho, para mim mesmo, porque lidamos com algo tão profundamente trágico e injusto. E aquelas são pessoas que eu conheço e trabalho junto, eu as conheci e elas estavam sob ataque em um local que conheço.

Então coloquei a cabeça em minhas mãos e chorei incontrolavelmente, o cinegrafista da Al Jazeera filmou sem minha permissão, eu não sabia, pensei que era um momento particular de tristeza, e as imagens foram enviadas de volta para Doha e transmitidas e se tornaram virais.

Depois, recebi milhares de e-mails de pessoas dizendo que tinha sido um momento tão humano e tão autêntico. E vindo de um funcionário da ONU isso mostra, acho, para o mundo, que a indignação e revolta eram reais. Isso não era uma retórica de “a ONU está profundamente preocupada” ou qualquer outra coisa, esta foi a ONU clara e profundamente golpeada.

Recebi e-mails de pessoas do escritório do secretário-geral dizendo “estamos todos orgulhosos de você, todos estamos satisfeitos por estarmos sendo retratados como uma organização humana”. Ninguém disse que traí a falta de neutralidade, muito pelo contrário, muitos disseram “estamos orgulhosos de que temos um porta-voz que pode mostrar esse nível de humanidade”.

Centro de Notícias da ONU: Há uma visão de que os porta-vozes devem trabalhar sob um estrito princípio de neutralidade – você acha que é possível quando se vê de perto tanto sofrimento?

Chris Gunness: Acho que é muito fácil confundir ser neutro com ser descomprometido. Acredito que seja perfeitamente possível – na verdade, acho que é essencial – que a ONU deva ser engajada. Você pode ter emoções, desde que seu cérebro, em última análise, governe seu coração. É possível usar uma linguagem neutra e fazer coisas que são neutras e projetar um senso de humanidade ao ser neutro.

Centro de Notícias da ONU: É considerado natural que porta-vozes sejam atacados por seu trabalho. Você já atraiu uma grande parcela destes ataques, de funcionários do governo a usuários públicos em mídias sociais. Como isso afeta você?

Chris Gunness: Gostaria de dizer que isso não me afetou, que são águas passadas. Mas essa não é a verdade. Isso me afetou profundamente. O que isso não afetou foi o julgamento.

Tenho levado adiante, independentemente dos ataques, tenho trabalhado de forma inabalável na missão da ONU, e projetado os valores das Nações Unidas e projetado o trabalho da UNWRA em tudo. Mas vou para casa e grito. Vou para casa e me sinto profundamente afetado por isso. Mas quem não estaria nesse tipo de situação?

Acredito que ninguém realmente espere que os trabalhadores humanitários não sejam afetados. Muito pelo contrário, acho que as pessoas iriam considerá-lo esquisito se passasse por todas essas experiências e se comportasse como tivesse ido ao escritório como um contador.

Acho que estamos autorizados a ter emoções, só que, em última análise, a neutralidade é o que importa e você pode ter uma vida emocional quando está lidando com essas situações injustas, enquanto permaneça inteiramente neutro.

Centro de Notícias da ONU: Como você relaxa depois de um dia de trabalho?

Chris Gunness: Corro e toco violino obsessivamente. Sou músico, estudei música em Oxford, e para mim a música é extremamente importante. Amo músicas medievais e cantava. Era um artista, costumava cantar em um coral profissional e continuo achando a música uma parte muito reparadora, paliativa da minha vida. Então escuto muita música, toco violino, corro e tenho a companhia mais maravilhosa que você pode imaginar.

Centro de Notícias da ONU: Onde você se vê depois de sua temporada com a UNRWA?

Chris Gunness: Infelizmente, estou desafiando a regra da ONU que diz que você deve mudar de posição a cada quatro anos. Mas, francamente, não posso pensar em outro trabalho que quero fazer mais. Tenho colegas extraordinários, pessoas que trabalham em estreita colaboração com inspirações humanitárias, todos temos um senso real de engajamento, e, francamente, depois da defesa que fiz, não tenho certeza que muitas pessoas queiram me contratar! Além disso, quando você trabalha com os refugiados que perderam tudo, é muito difícil dizer adeus e seguir em frente.

Centro de Notícias da ONU: Por último, o resultado final que você vê para o conflito Israel-Palestina?

Chris Gunness: Em última análise, haverá uma resolução política. As pessoas não podem ser negadas de seus direitos por tanto tempo. A história não tem nenhum exemplo de algum caso onde por décadas pessoas vivam neste estado; dispersos, exilados e despossuídos. Acredito apaixonadamente – posso ser morto – mas acredito apaixonada e esmagadoramente que um dia haverá justiça para os palestinos.