Uma cicatriz nos sonhos de uma criança

3 de setembro de 2015

Uma cicatriz nos sonhos de uma criança

Um ano após o violento conflito de 2014, a dor das lesões permanece para muitos refugiados da Palestina na Cisjordânia. Mahmood é um jovem adolescente que está crescendo no campo de Arroub. Confrontos ocorrem frequentemente no campo – mais que uma vez por semana – com constantes operações de busca realizadas pelas forças de segurança israelenses.

As perspectivas da vida de Mahmood mudaram para pior ano passado quando ele prendeu sua cabeça em uma janela do primeiro andar e foi alvejado pelas forças de segurança israelenses com uma bala não letal. O projétil o atingiu na testa, fraturando seu crânio. “De repente eu me vi numa piscina de sangue”, lembra.

A tensão já estava alta no dia que Mahmood foi ferido: o incidente ocorreu dois meses depois que dois jovens foram baleados na Beitunia, seis semanas após o sequestro e o assassinato de três jovens israelenses na Cisjordânia e na terceira semana dos conflitos de 2014 em Gaza. Foi também o dia em que os moradores do campo enterraram Eid Fdalath, um residente que foi reportadamente baleado até a morte após uma desavença com as forças de segurança israelenses.

O uso de munição real pelas forças de segurança israelenses nos campos de refugiados da Cisjordânia aumentou nos últimos anos e, com isso, o risco de lesões sérias ou morte dos civis.

“Os sobreviventes podem enfrentar dor prolongada e custos médicos”, diz Felipe Sanchez, Diretor das Operações da UNRWA na Cisjordânia. “Educação e oportunidades de emprego também podem ser afetadas, enquanto alguns podem desenvolver problemas emocionais e encontrar dificuldades para reconstruírem suas vidas.”

Padrões internacionais de policiamento estipulam que armas de fogo não devem ser usadas contra pessoas, especialmente crianças, exceto em casos de legítima defesa ou defesa de outra pessoa contra uma iminente ameaça de morte ou danos graves. Entretanto, a UNRWA relata regularmente casos de manifestantes da Palestina que foram feridos por forças israelenses recorrendo a munição real, incluindo rifles de calibre 22, principalmente aqueles que vivem dentro ou próximos de campos com um grande número de refugiados. Os manifestantes desses casos documentados são principalmente jovens e crianças que foram atingidos pelas forças de segurança israelenses que não deram nem advertências verbais nem fizeram uso de tiros de advertência, contrariando ordens militares internas.

Ferimentos causados por munição letal aumentaram nos últimos anos. De acordo com as informações da UNRWA, pelo menos 82 palestinos foram feridos por munição real nos campos de refugiados da Cisjordânia entre julho de 2014 e julho de 2015. Muitas destas lesões envolvem crianças: entre janeiro de 2014 e junho de 2015, um total de 110 menores refugiados da Palestina foram feridos, 26 por munição letal. Outras quatro crianças perderam suas vidas para armas de fogo.

O uso impróprio ou excessivo de armas não letais também podem ter graves consequências. No último ano, no campo de refugiados de Aida, uma mulher de 45 anos morreu após ser exposta a gás lacrimogênio na sua casa. A UNRWA tem apontado regularmente às forças de segurança israelenses que suas próprias instalações e equipe estão sendo afetados pelo uso do gás lacrimogênio no mesmo campo.

Vida após a lesão

Um ano após ter sido ferido, a equipe da UNRWA se encontrou com Mahmood e sua mãe e os ouviu sobre sua lenta e dolorosa recuperação. Após o incidente, Mahmood foi hospitalizado por quatro dias e precisou de cirurgia para remover a bala não letal, além de inserir placas de platina para proteger seu crânio. A mãe de Mahmood contou que desde sua lesão, ele não aguenta temperaturas muito quentes ou frias, às vezes ficando azul e desmaiando quando ele não pode mais suportar.

Mahmood compara sua vida antes e depois da lesão. “Eu não consigo mais me concentrar na escola por mais que 10 minutos”, ele diz. “Eu era muito bom na escola, mas ano passado reprovei em Ciências.”

Fatores psicológicos agravam o fisiológico – vergonha e baixa autoestima são problemas recorrentes em crianças tentando retornar à escola após serem feridas. “Eu não posso mais jogar futebol, e meus amigos pararam de jogar comigo também,” Mahmood acrescenta tristemente, “Eu sempre me lembrarei do que aconteceu e como parte da minha cabeça é agora de platina.”