Escombros, pedras e aço: um dia na vida de uma mãe trabalhadora em Gaza

18 de julho de 2016
Foto Jihad

 

Em um abrigo de metal improvisado em Khan Younis, sul de Gaza, vive Jihad Abu Mihaisen, uma refugiada da Palestina de 48 anos, com seu marido e dois filhos.

A vida de Jihad, assim como a de todos os palestinos que vivem em Gaza, é gravemente impactada pelo bloqueio, que chegou ao seu décimo ano. Interrupções no fornecimento de eletricidade e combustível, insegurança alimentar, altíssimas taxas de desemprego, poluição, casos recorrentes de violência armada e a situação política frequentemente paralisada fazem parte do seu dia a dia.

Jihad é chefe de família e tem que cuidar de seus dois filhos e de seu marido nesse contexto conturbado. Por desespero, Jihad, como muitos outros moradores da região, ganha seu dinheiro ao passar pelos escombros das casas destruídas – uma terrível lembrança do conflito devastador de 2014 – tentando achar pedras e alumínio para vender e poder sustentar sua família. Jihad não apenas trabalha por longas horas, mas seu trabalho demanda muito fisicamente, e frequentemente ela volta à noite, exausta e frustrada, para sua família no abrigo improvisado.

A taxa de desemprego em Gaza foi de 41%, em 2015, sendo considerada pelo Banco Mundial como a mais alta do mundo. Em 2015, a média da taxa de desemprego entre os jovens em Gaza foi de 61% e a taxa de desemprego entre as jovens mulheres foi de 78,5%, de acordo com o Escritório Central de Estatísticas Palestino. O desemprego em Gaza atingiu níveis extremamente altos como um resultado direto dos recorrentes conflitos e restrições de circulação de bens e pessoas devido ao bloqueio.

“Eu e minha família somos como todas as outras famílias em Gaza, expostas e tentando viver em condições inquietantes e inimagináveis. Nós não encontramos empregos para alimentar nossas crianças, então tentamos de todas as formas possíveis. Meu trabalho é muito duro – Eu tenho que carregar alumínio e pedras todos os dias, colocando eles no meu burro e indo ao mercado para vende-los, e isso várias vezes ao dia”, explica Jihad. “Ainda assim, eu não tenho uma renda estável, isso depende de quanto alumínio eu consigo encontrar ou de quantas horas eu estou disposta a trabalhar antes que eu ou meu burro fiquemos exaustos”, complementa.

Jihad e sua família vivem em condições muito pobres, que são agravadas pela falta de eletricidade. Desde que um ataque aéreo israelense atingiu a usina elétrica de Gaza, em 2006, os palestinos de Gaza enfrentam cortes regulares de energia. O fornecimento de energia elétrica permanece bem abaixo da demanda, e isso só piorou após o desligamento completo da usina em abril de 2016, devido à falta de reservas de combustíveis disponíveis. Os cortes de energia afetam as empresas privadas e casas, serviços de saúde, estações de tratamento de esgoto e escolas.

“Meus dois filhos estudam no turno da tarde em suas escolas, então eles precisam estudar durante a noite. Infelizmente, é quando a energia geralmente é cortada. Nós dependemos de uma lâmpada recarregável, que gera uma luz fraca”, explica Jihad.

Devido aos cortes de eletricidade que duram de 18 a 20 horas por dia, as famílias em Gaza precisam lidar com alternativas como lâmpadas recarregáveis, pequenos geradores, velas ou outras ferramentas ultrapassadas como luzes de querosene. A família de Jihad geralmente permanece suas noites no escuro, usando fogo para aquecer a água para tomar banho.

“Eu estou tentando evitar usar velas porque um dia nós usamos e isso causou um incêndio no quarto. As luzes recarregáveis são melhores, mas elas são caras”, conta Jihad.

O recorrente conflito e o bloqueio ilegal por terra, ar e mar, que entrou no seu décimo ano em junho de 2016, é hoje uma das principais causas da crise socioeconômica e psicossocial em Gaza. As restrições na movimentação de pessoas e bens continuam punindo coletivamente a população civil, afetando cada aspecto da vida em Gaza, comprometendo a economia local e ameaçando o cumprimento da maioria dos direitos humanos, em uma clara violação legal das obrigações de Israel perante a lei internacional. As dificuldades intensificadas pelo bloqueio, bem como o encerramento de túneis para o Egito, também tiveram um impacto psicológico menos visível, mas muito profundo, sobre o povo de Gaza.