Salwa Abu Nemer: Sem água, sem uma vida digna

18 de julho de 2016
Foto Salwa

 

Salwa Abu Nemer, 33 anos, uma mulher refugiada da Palestina, e seus oito filhos vivem em um abrigo improvisado em Khan Younis, sul de Gaza. A família vive sob circunstâncias indignas. Apesar de não terem uma casa ou uma fonte de renda, Salwa considera a falta de água corrente e saneamento básico como o problema mais sério de sua família e de seus vizinhos, já que causa doenças, especialmente nas crianças.

A casa de Salwa não está conectada à rede de água, por isso sua família precisa comprar água potável e não potável de camihões-pipa, o que é caro. De acordo com o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (OCHA), muitas casas na Faixa de Gaza ainda estão sem acesso ao fornecimento municipal de água devido ao dano causado durante conflito de 2014, que ainda não foi reparado.

“Às vezes, nós ficamos muitos dias sem poder lavar as roupas. As crianças pegam sarna e piolho”, conta Salwa. “A água é uma das necessidades básicas da vida, mas nós temos escassez dela e pagar é muito caro, muitas vezes nós não podemos comprar”.

Os reparos à infraestrutura em Gaza estão atrasados, agravados pelo fato que itens muito importantes como bombas d’água, equipamentos de drenagem e químicos desinfetantes estão na lista de dupla utilização israelense, o que significa que a sua entrada em Gaza só é permitida seletivamente. Muitas casas afetadas se tornaram completamente dependentes de caminhões-pipa.

“Nós temos problemas tanto com água potável quanto com água não-potável. Nós ficamos mais de quatro dias sem água, o que realmente dificulta e afeta o nosso dia a dia”, explica Salwa. “Sem água não há dignidade, mas às vezes nós simplesmente não temos dinheiro para pagar pelo tanque”.

A situação de água e saneamento para os palestinos em Gaza é crítica. Sem rios perenes e com baixo índice de precipitação, Gaza depende quase que completamente da costa aquífera. Como os níveis de água subterrânea diminuíram, a água do Mar Mediterrâneo, que fica nas proximidades, se infiltra. Além disso, o aquífero fica contaminado devido ao esgoto despejado e aos fertilizantes da irrigação de terras agrícolas. Hoje, 96% da água do aquífero não é segura para consumo sem tratamento. A disponibilidade de água limpa é limitada para a maioria dos palestinos em Gaza. Desde abril, o consumo médio diminuiu para 55 litros por pessoa por dia, bem abaixo do padrão estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que é de 100 litros diários por pessoa.

“Nós usamos um balde de plástico pequeno para armazenar a água, e isso não é higiênico. Quando as minhas crianças querem tomar banho ou precisamos limpar alguma coisa, nós movemos a água de um lugar para o outro usando baldes menores, o que é uma perda de esforços e tempo”, lembra Salwa.

A situação em relação ao tratamento de águas residuais e esgoto não é menos problemática. Como mencionado em 2012 no relatório Gaza em 2020: Um lugar habitável?, apenas 25% das águas residuais, ou 30 mil metros cúbicos (m³) por dia, serão tratadas e reutilizadas em áreas verdes e em algumas formas de agricultura. Desde 2012, aproximadamente 90 mil m³ de matéria ou de esgoto parcialmente tratado tinham que ser despejados diariamente nos arredores do Mar Mediterrâneo (aproximadamente 33milhões de m³ por ano), gerando poluição, riscos para a saúde pública e problemas para a indústria pesqueira.

Desde que a Usina Elétrica de Gaza foi forçada a encerrar suas atividades completamente, em abril de 2016, após esgotar suas reservas de combustível, o armazenamento reduzido de eletricidade para as instalações de tratamento de esgoto resultou em ciclos reduzidos de tratamento, aumentando o nível de poluição das águas parcialmente tratadas despejadas no mar. O desligamento das estações de tratamento também aumenta o risco de refluxo e de inundação de esgoto pelas ruas.

O recorrente conflito e o bloqueio ilegal por terra, ar e mar, que entrou no seu décimo ano em junho de 2016, é hoje uma das principais causas da crise socioeconômica e psicossocial em Gaza. As restrições na movimentação de pessoas e bens continuam punindo coletivamente a população civil, afetando cada aspecto da vida em Gaza, comprometendo a economia local e ameaçando o cumprimento da maioria dos direitos humanos, em uma clara violação legal das obrigações de Israel perante a lei internacional. As dificuldades intensificadas pelo bloqueio, bem como o encerramento de túneis para o Egito, também tiveram um impacto psicológico menos visível, mas muito profundo, sobre o povo de Gaza.